História:
Em julho de 1960 esteve no Brasil Padre-Geral João Schuette para a visitação costumeira. Com o provincial P. Holz voaram para Brasília a fim de conhecerem o lugar do futuro estabelecimento da Ordem. Grande foi a desilusão do Provincial ao saber de Dom José Newton que, em Brasília, não havia nenhum terreno reservado para a SVD., nem mesmo para uma paróquia. Muito desgostoso P. Provincial retirou de Olhos d’Água ao P. João Ustarbowski. A situação vem assim descrita por P. Paulo Karlheim (1908-91) em carta datada de Soligen (Alemanha) aos 27 de maio de 1990: “Gross war Deine Enttaeuschung und Blamage vor dem general schuette, als Dom Newton Dir Klarmachte, dass fuer die S.V.D Kein Platz in Brasilia reserviert sei und nicht mit einer pfarrei dort rechnen Koennte. Auf diesen Wortbruch dês Bischofs von Goiânia hin hast Du Ustarbowski aus Olhos d’Água zurueckgezogen.”
Passam-se os meses, quase um ano, primeiro em 24 de maio de 1961 é que P. Pedro Holz retoma a correspondência com o Sr. Arcebispo, como segue:
“Depois de longo silêncio volto à presença de V.Exª. para reatar o fio da conversa que tivemos em meados de julho do ano passado, por ocasião da visita de nosso Revmo. P Superior Geral. Não sei se V.Exª. se lembra ainda. Por isso peço licença para relembrar, brevemente, o “Status quaestions” que se ventilou naquele encontro.
Antes de mais nada, V.Exª. mostrava-se bem informado a respeito dos entendimentos entabulados com S.Exª Verª., Dom Fernando, Arcebispo de Goiânia, repetindo ao nosso P. Superior Geral o que mais tinha escrito, em 14/6/1960, que o nosso pedido de admissão à Arquidiocese de Brasília estava “em ordem cronológica, no arquivo desta Cúria.”
Quando nosso objetivo concreto, a saber, uma paróquia urbana com colégio masculino e feminino (este, para Missionárias Servas do Espírito Santo), V.Exª. deu a entender que nos contentássemos com o colégio deixando de lado a questão da paróquia. O P. Superior Geral concordou imediata e plenamente limitando os nossos desejos à construção de um colégio sem, entretanto, marcar prazos, o que, aliás, não era possível.
Combinamos, então, que eu voltasse oportunamente, para, de acordo com as preferências de V.Exª., localizar o terreno do futuro colégio. E no momento da despedida, já nos umbrais da portaria, V.Exª. me sussurrou aos ouvidos – o que aliás já me tinha escrito na carta acima mencionada – “Tenho simpatia pelos Padres do Verbo Divino! Pode contar comigo, que vou ajuda-lo a encontrar um terreno adequado!”
Pois bem, é exatamente para pedir este auxílio que pretendo voltar a Brasília, em companhia de mais 3 confrades, solicitando, desde já, o favor de uma audiência. Infelizmente não me é possível prever a data exata de minha chegada. Pretendo viajar de automóvel na primeira semana de junho, depois do dia 4, estando aí, provavelmente, dia 7 ou 8 de junho p.f. No caso de não encontrar V.Exª., peço licença para encetar conversações com as autoridades locais (prefeitura, etc.) comprometendo-me a informar V. Excia, sobre o andamento das negociações.”
Neste contexto entra em cena P. Paulo Karlheim, falecido na Alemanha a 3 de outubro de 1991 aos 83 anos de idade. Em 1926 entrou na Congregação, sendo dos primeiros alunos que vieram da Europa para reforçarem o Instituto Missionário de São Miguel, na Borda do Campo, 17 km de Barbacena, Minas Gerais. Seu primeiro campo de apostolado foi a china (1937-50) donde, expulso pelo Governo Comunista, regressou ao Brasil. P. Karlheim era pessoa de fino trato, de maneiras diplomáticas, representando, durante as décadas de 1960-70, os interesses das três províncias verbitas em Brasília. Mui jeitosamente entro em contacto com Dom José Newton que se queixava amargurado: “P. Paulo, eu sou grande amigo dos verbitas, mas o seu Provincial ofendeu-me numa carta”. – Após ter lido a referida carta observou P. Paulo: “Isto não é uma ofensa a Vossa Exª., o Padre queixa-se sobre a promessa não cumprida”
Entretanto o Sr. Arcebispo já planejava entregar à Congregação do Verbo Divino duas grandes áreas, os assim chamados “conjuntos paroquiais”, cada qual de 45.000 metros quadrados, divididos em três partes iguais de 15 mil metros cada: Na L2 Norte (nome oficial SGAN Setor Grandes Áreas Norte) 609 com Educandário do Espírito Santo, Paróquia do Verbo Divino e Anthropos do Brasil; e idem 611 atualmente Irmãs da Assunção, Paróquia de N.Srª das Dores e Irmãs Paulinas. Portanto o atual terreno da Sociedade Propagadora Esdeva, denominação civil da Congregação do Verbo Divino, onde está o prédio que abriga o Anthropos do Brasil, mede 83,33 ms de frente para L2 Norte, e 180 ms do Módulo D e 50 do E. O prédio da ESDEVA está plantado no meio da propriedade, construção solidíssima, um verdadeiro desperdício de cimento armado por baixo, por cima e por todos os lados.
Para os cultores da geografia e da história: antes da desapropriação da área destinada ao Distrito Federal o sítio destes módulos da 609 Norte chamava-se Bananal ou Lagoa Bananal, como costa da escritura do imóvel.
Neste tempo, agosto de 1961, desencadeou-se a crise política com a renúncia do presidente Jânio da Silva Quadros. Mesmo assim, poucos meses mais tarde, P. Paulo Kalheim, através de muitas diligências bucrocráticas, conseguiu a documentação de propriedade do referido imóvel na Capital da República.
O requerimento do Sr. Arcebispo junto ao presidente da NOVACAP, Dr. Francisco da Silva Laranja Filho, foi firmado em 30 de outubro de 1961. Nos rascunhos de Dom José Newton se lê: “A parte L(este) da Asa Norte dividida em duas: a) as paroquiais de Santo Inácio e de São José com os Jesuítas; b) as outras duas (V. Divino e N. Srª. Das Dores) com os PP. Do Verbo Divino. Celebraremos quanto antes o convênio a ser aprovado pela Santa Sé, à norma das diretivas da S. Congregação do Concílio. Os PP. Do V.D. se comprometem a dar início “quem primum” à construção de uma igreja definitiva. Enquanto a zona não se povoa, os padres darão auxílio à Arquidiocese em outra futura paróquia, a ser entregue aos PP. Seculares, por ex. (por enquanto), o Gama. O padre ficaria na Asa Norte 2ª, 3ª e 4ª feiras e, no Gama , nas 5ª, 6ª, sábados e domingos. Domingo poderia ser dividido entre o Gama de manhã e a Asa Norte à tarde. A Arquidiocese dará condução, a ser devolvida em bom estado de conservação, apenas tenha um Padre para a Paróquia do Gama; e, deixando o Gama, o Padre tomará conta também da paróquia vizinha, na Asa Norte, N. Srª. das Dores. Quando possível, os PP. Ajudarão à Mitra nos processos burocráticos da NOVACAP.”
A planejada paróquia de N. Srª. das Dores na Quadra 611 entre as Irmãs da Assunção e as Paulinas, por falta de povoamento das Superquadras 413 e 414, não foi criada até o momento (1992) mas, pela substituir, foi instituída, nas 414 e 415, a paróquia da Mãe da Divina Providência. A senhora das Dores já é titular de uma freguesia no bairro do Cruzeiro Velho, próximo à Rodoferroviária.
Em meados de novembro de 1961 P. Provincial teve encontro com Dom José Newton em Brasília, acertando ambos que, em janeiro vindouro, seria instalada a nova paróquia verbita na Asa Norte com a posse do respectivo vigário. Já em 8 de janeiro de 1962, por carta, comunicava P. Pedro Holz a Sua Exª. que, em 30 daquele mesmo mês, estaria em Brasília para apresentar-lhe P. Francisco Faustino Kill ( 1897-1963) que seria o vigário “desta paróquia provisória”. E diz mais na epístola: “Dia 12/1/1962 irão a Brasília também as Irmãs Servas do Espírito Santo (Madres Visitadora Geral e Provincial) para inspecionar o terreno do conjunto paroquial que V.Exª. nos cedeu. Elas estão interessadas em iniciar conosco o trabalho em Brasília, mesmo fora da futura paróquia do Verbo Divino, onde pretendem fundar um colégio e dirigir uma escola paroquial.”
Sobre os méritos de P. Paulo Karlheim segue transito e registro de P. Francisco Kill ao abrir o Livro de Tombo da futura paróquia do Verbo Divino em Brasília:
“30 de janeiro de 1962 – Não podemos deixar de destacar, com gratidão, os hercúleos esforços de Revmo. P. Paulo Karlheim da Província SVD. do sul, no que concerne à aquisição do terreno e dos entendimentos com as autoridades Eclesiásticas e Civis, quer que seja com o Exmo. Sr. Arcebispo de Goiânia, sob cuja jurisdição se achava então o atual Distrito Federal, ou o nosso atual D. José Newton, DD. Arcebispo de Brasília, entendimentos estes que resultam na definitiva fixação de uma Paróquia, prometedora para o futuro, que por certo dará grande projeção à nossa querida Congregação do Verbo Divino no cenário tanto nacional, como especialmente no âmbito da Igreja em sua luta gloriosa na conquista das queridas e abandonadas almas de Brasília.”
Consolida-se a posição da SVD. em Brasília
Doravante estes breves apontamentos sobre a história da Congregação do Verbo Divino no Planalto Central do Brasil se ancoram nos dados fornecidos por três livros de crônica: 29 folhas do livro de tombo da Paróquia do Verbo Divino (ou “São José”), aberto aos 27 de março de 1962 pelo pró-chanceler da Cúria Arquidiocesana, P. Eduardo Walle. A “Crônica da Casa das Servas do Espírito Santo em Brasília” iniciada por Irmã C. Neusa Lisboa em janeiro de 1963 e terminada em 31 de dezembro de 1974, fartamente ilustrada e, parece, toda datilografada pela Ir. Vera Maria Ribeiro. “Crônica da Casa dos Padres do Verbo Divino” de 13 de janeiro de 1965 a 29 de junho de 1972 quando a encerrou padre Otto Baumgartl. A maior parte escrita em caligrafia feminina. De 24 de janeiro de 1970 redigida por P. Geraldo Pastoors. No mais manuscritos e pesquisas do Autor (P.César).
A 30 de janeiro de 1962, procedente de Belo Horizonte e acompanhado pelo Provincial P.Pedro Holz e seu ecônomo P.Egon Zoellner, chegou a Brasília P.Francisco F. Kill, primeiro sacerdote brasileiro da Congregação do Verbo Divino para ser também o 1º vigário da Paróquia do Verbo Divino. A posse da Prevista freguesia se deu na Cúria Arquidiocesana em 2 de fevereiro de 1962, 1ª sexta-feira do mês. Sua residência era no apartamento do Bloco 64, hoje Bloco O da Superquadra Norte 407. Toda a parte leste da Asa Norte constituía a então Paróquia do São José na L2 Norte 604. P. Kill, portanto, morava a meio caminho das 604 e 609. O Bloco 64 (hoje Bloco O) era então o último residencial construído para os funcionários do IAPC, Instituto de Aposentadorias e Pensões, ninho de corrupções e falcatruas do Ministério do Trabalho, substituídas ultimamente pelos seus famigerados herdeiros INPS, INSS E companhias ilimitadas.
Constam, outrossim, na mesma ata do Tombo, as determinações de Dom José Newton respeito às obrigações do novo vigário de atender a todos os 64 Blocos da Asa Norte em que eram previstas mais outras quatro paróquias, bem como a cidade satélite do Gama que, aquela altura, já contava mais de trinta mil habitantes. Padre Kill se empenhou sobremaneira junto às Autoridades para conseguir a escritura do terreno da SVD. na Quadra 609 da L2 Norte. “Outrossim – lançou na Crônica – estou pensando seriamente na construção da moradia das Revmas. Irmãs S.Sp.S anexa a uma Capela- Escola. Será uma construção provisória de madeira. As reclamações ou, melhor, os pedidos das famílias da Asa Norte para que as Irmãs venham quanto antes, e fundem o Jardim de Infância, Primário e Assistência Social, são muito insistentes e numerosos”.
O primeiro batizado deu-se a 25 de fevereiro de 1962, domingo – a criança recebeu o nome de Osanete. Dia 19 de março, onomástico de D. José Newton, houve a primeira reunião do Clero no Seminário com a presença de apenas três padres e era quase todo o clero de Brasília, afirma P. Kill. Programaram-se Santas Missões para abril, pregadas por oito capuchinhos. “2 de abril de 1962 realizou o primeiro casamento, no apartamento do vigário. Os nubentes foram: Everson de Barros Freitas e a Viúva Ledes Silva do Carmo.” – 5-6-62: De uma companhia particular conseguiu-se uma máquina para início das obras no terreno da Congregação.
18-6-62: Vista dos confrades: Provincial P. Pedro Holz, Egon Zoellner, Frederico Helmel, Marcos Frota, Frederico Droege, Boleslau Kuczkowski, José Symalla e Irmão Leônico. Dias antes já tinham passado por Brasília: padres Alberto Staub, Ernesto Rall e Junkersfeld, vigário para os católicos de língua alemã.
1º de agosto de 1962 – Ligação provisória de água para o Barraco “Serviço Social Verbo Divino”, pelo o que expressaram agradecimentos ao presidente da NOVACAP, Dr. Ataualpa Schmitz da Silva Rego, e ao diretor do Departamento de água e esgoto, Dr. Pimenta. O recibo de Cr$11.716,90 de nº.01430, consta no arquivo e leva data de 26 de novembro de 1962.
Na madrugada de 2 para 3 de setembro foram roubadas do canteiro de obras do “Serviço Social Verbo Divino” 25 tábuas e 30 pontaletas no valor aproximado de vinte e dois mil cruzeiros.
31 anos de ordenação sacerdotal de P. Francisco Faustino Kill
O primeiro sacerdote brasileiro da SVD.foi ordenado pelo Sr. Arcebispo de Mariana, D. Helvécio Gomes de Oliveira, aos 20 de dezembro (domingo) de 1931, na Capela do Instituto Missionário São Miguel, Borda do Campo, 17km. de Barbacena, Minas Gerais. 31 anos mais tarde, 20 de dezembro de 1962, fez questão de, nesta comemoração, transladar-se do apartamento 204 do atual Bloco O da Superquadra Norte 407. Aí, debaixo do prédio, sustentado por pilotis (palavra francesa, do latim pila = coluna), como é de praxa nos blocos residenciais de Brasília, celebrou a última missa ao ar livre. No dia subseqüente celebrou-se a primeira missa no local da futura Paróquia do Verbo Divino – o Barraco do Serviço Social!
Este Barraco que serviu de morada para os filhos e filhas de P. Arnaldo até 1968/69, foi erguido no terreno da Mitra, rente à propriedade da SVD. Todo de madeira, chalé acachapado, uns 30 ms. de frente para a Avenida L2, naquele tempo com uma única faixa de asfalto; os fundos da casa foram ampliados de acordo com as necessidades de mais espaço, v.g., quando chegaram as Servas do Espírito Santo (9-1-1963). No frontispício fixou-se uma placa com estes dizeres:
CONGREGAÇÃO do Verbo Divino. 3º Conjunto Paroquial
Super Quadra 409
3º Conjunto Paroquial referindo aos dois primeiros de Santo Inácio e de São José Operário. Super Quadra 409, a que está olhando para a Quadra (pequena, apenas 250 ms.) 609 da L2 Norte.
Pelos fins de 1962 P.Francisco Kill começou de sentir-se mal com sintomas de problemas cardíacos, quando ainda residia no apartamento 204 do Bloco O, antigo 64. Vivia em boa amizade com os vizinhos, nomeadamente com o casal Joaquim Pereira Sales e Oraida de Almeida, Juiz de Fora, residentes no então Bloco 63. D.ª Oraida lavava e passava-lhe as roupas, preparava o altar para as missas debaixo do Bloco, etc., e me afirmou (13-6-91) que o Revmo. Vigário não passava necessidades. A conselho do médico passou a paróquia (23-6-1963) ao P. Euller Alves Pereira, retornando a Juiz de Fora onde veio a falecer aos 29 de outubro.